Assim que entramos no mercado do peixe do Perpétuo Socorro,
somos surpreendidos – mais ou menos, dependendo do contato que se tem com esses
mercados de peixe da Amazônia – pela barafunda colorida e álacre que toma as
bancadas recobertas de zinco onde jazem, ainda vivos – mais do que frescos –
tambaquis, uritingas, piaus, pacus, pacusis, piranhas, akaris, bodós, filhotes,
piraíbas, matrinxãs, pirapitingas, surubins, etc. O gazetear dos vendedores, os
chistes sinceros dos carregadores e compradores, tudo isso envolve o espectador
numa aura própria, única, que dissolve o tempo e lhe imputa uma certa pressa,
ou, antes, uma azáfama alegre e buliçosa, que marca o contraste da aparente
pobreza dos frequentadores (compradores e vendedores) com a riqueza que manipulam,
a nobreza do produto que negociam, e cuja fartura permite aos mais esclarecidos
entender que a pobreza é apenas aparente.

Não foi diferente neste sábado onde, indo encontrar minha
camarada cozinheira de terra indígena, Naídes, que mantém uma banca de peixe
salgado no mercado, aproveitei para comprar matrinxãs e fazer umas fotos dos já
conhecidos vendedores. Entre um gole e outro de café, eis que uma algaravia
toma a parte fronteira do mercado: defronte ao caminhão que descarregava sacas
de cebolas, Maria Inês, conhecida vendedora de ervas e tucupi, deblaterava com
o proprietário do caminhão, que lhe devia sacas e mais sacas já pagas, vindo
entregar, disparatadamente, apenas aos outros vendedores, o produto. De chofre,
Maria Inês, irritada e a invectivar contra um carregador, entre aplausos e
gritos jocosos de incentivo dos frequentadores do mercado, sobe à caçamba do
caminhão e começa a deitar fora as sacas que o dono entregaria a outros que não
ela. Mais aplausos e chistes.
---- Égua, mulherzinha enxirida essa! Dizem alguns.
---- Certa ela... o homem recebeu e não entrega... tá
pensando que a gente somos besta?

Naídes e Loira, sua colega de banca, se riem, e arrumam os
saquinhos com coloral e as garrafinhas de tucupi sobre a bancada, enquanto eu
dou mais uma rodada pelas bancadas onde uma nova leva de tambaquis e pacus
pretos agonizam, e, para sincera irritação de um jovem vendedor, ainda não
convencem a dona maria que, examinando-o detrás dos óculos de grossos aros e
prendendo os cabelos já repletos de cãs, pergunta:
---- Essa aqui tá fresca mesmo, será se?
Mais algumas tomadas, e gracejos com um freguês que
afastou-se o foco da objetiva de sopetão, como quem leva um soco, como um
foragido.
---- Égua, medo é esse mano? Tá com medo de ir para no
Bronca Pesada do meio-dia? Exclama entre risos o vendedor que tica um par de
piranhas na sua frente.
Mais risos. A vida segue seu ritmo, entre a morte agonizante
dos peixes e o sustento dos vendedores e das famílias das matronas caboclas que
regateiam o centavo/grama, como sói.
Deixando o mercado, provisoriamente instalado na avenida Ana
Nery, longe um tanto do Amazonas, mas ainda no tradicional bairro pescador do
Perpétuo Socorro, deixei-me levar pela faina colorida e aromática do mercadejar
dos viventes, e vaguei a esmo pelo bairro, pois tinha-se acabado a película –
última – dentro da Zeiss.
Como sempre acontece, deparei-me com a beira-rio, que, neste
trecho a norte do Igarapé das Mulheres, é um ermo selvagem – deliciosamente
selvagem – onde os aningais encostam de quando em quando, e ainda há vegetação
sobre o leito lamacento-arenoso do Rio. Uma placa de macabaúba encostada à
murada, e mais um chiste de vida: “Temos peixe”. Ô se! O Rio logo atrás. Última
pose, sorte!

Estando o sol a pino, o que, por estas bandas equatoriais
significa que estava inclemente, decidi aprumar o rumo da caminhada para o
Igarapé das Mulheres, de onde poderia comprar um açaí ir para casa assar a
matrinxã. Mas todas as vezes que percorro este lado norte da orla, agora
devastada pela força das águas no repiquete pré-piracema, sinto certo misto de
tristeza e felicidade. Felicidade porque sendo ali a beira-rio do bairro pobre
e tradicional dos pescadores, os esforços das prefeituras anteriores em
construir quiosques com apelo turístico (o que, no caso do Brasil, consagra sua
raiz e quer dizer “para inglês – e só inglês, não o nativo – ver”) e
transformar a várzea em uma praia para os gringos, foram malogrados.
Mas também tristeza porque, contemplando a beleza da
paisagem ainda selvagem, onde alguns moradores se banham com os filhos
tranquilamente, e, na preamar, lanchas e iates aportam à espera da cheia,
regateando, sempre vejo por ali algumas pessoas que se apoderaram dos quiosques
falidos e, tendo atado redes, cozinham em latas de tinta látex os bodós que o
povo joga fora. Como pode tanta pobreza, à margem de tanta riqueza? É um
contraste de dar calafrios: Pneumotórax, uma vinda inteira que poderia ter sido
e não foi...
Por diversas vezes essa mistura de sensações tomou conta de
mim ao passar por ali. E isso se acirrou desde de a ante-penúltima vez, quando,
ao entardecer de uma quinta-feira, vi uma moça jovem, de cerca de 18 anos,
morena de nascença, escura de sol, magra e tatuada, sair de uma lancha aportada
enquanto o proprietário subia a braguilha de sua calça, à proa, como quem
palita os dentes depois de melar-se todo de peixe reimoso. Seus olhos – os da
moça – percorriam a beira, envergonhados, e pude ver que mareavam, à preamar.
Outra feita, zanzando por ali, confirmei as suspeitas: era,
a moça, mais uma das mulheres brasileiras que o Brasil enjeita, e que sustenta
as carnes depreciando a alma, vivenciando perigos vários por estas beiras,
baixios, zonas, portos, tantos, tantos, que sequer chegamos a conhecer.
O caso é que desta feita, tomado, como sempre desde então,
pela mesma mistura de sensações de sempre, parei em um ponto onde julgava não
haver absolutamente ninguém, para aproveitar o poderoso zoom ótico da câmera
digital e fazer umas tomadas de um pai que brincava com seu filho nas águas do
Amazonas banhadas de luz, até que, amaldiçoando o sistema de focagem da Fuji,
que limita muito a focagem manual, percebi que alguém se achegava por trás de
mim.
---- O senhor tem um cigarro?
Era ela. Magra, queimada de sol, o rosto jovem e o riso
ingênuo de moça cabocla a persistir, triunfante, sobre a pobreza extrema a que
fora relegada. Respondi que não, e fiz menção de que ia guardar o equipamento e
deixar o local, já que, não pretendendo usufruir de seus serviços, não iria
tomar-lhe o tempo.
---- Aqui é bonito né? Pena que é sujo. Eu moro aqui, na
beira, bem ali – e embeiçou na direção dos quiosques abandonados.
---- Pois é, é lindo, sim. Tampei a objetiva, e fechei o
case da digital, respondendo que, ao menos, não lhe faltava lugar para banhar e
pegar água (em todo o Perpéctuo Socorro, por um milagre da natureza humana e da
administração pública a mais corrupta, falta água, estando há metros do maior
rio do mundo: não riam; por favor, contenham-se, pois é triste).
---- Ah, não, eu não banho aqui não. É muito sujo. Tem muita
gente que joga sujeira, porco morto; por esses dias, mataram uma sucuriju aqui
com um pau. Sorriu, entre matreira e humilhada, a engolir seco como quem se
prepara para anunciar ou pedir algo importante. E prosseguiu: ---- eu banho nos
barcos, quando durmo com os caras, e também no motel...
Fez um silêncio envergonhado, contemplou o rio, e, prendendo
o vestido com a presilha dos cabelos, no intento de mostrar as magras pernas
provocativamente, tomou a resolução de expor, por fim, seu intento:
---- Bora fazer um sistema, nós dois? Eu tô com fome...
Eu, que já tinha virado as costas devagar e ia embora,
aproveitando sua pausa contemplativa, estaquei, gélido, ante a dureza sincera
da frase, enunciada em tom tão melífluo e matreiro por uma simples menina, tão
menina quanto versada nas artes de humilhar a alma promovendo o corpo. “Eu tô
com fome” foi a frase mais arrebatadora que ela poderia ter dito, neste
contexto delicadamente orquestrado para embrutecer os sentidos e calar a razão,
ironicamente diante de tão puros e bonitos, profundos estímulos como o vento
agridoce e a paisagem do rio, em cuja outra margem um verdadeiro e concreto
Eldorado se estende pelo tapete verde de açaizais cortados pelo Rio de onde os
peixes pulam para as malhadeiras por livre iniciativa.
Sem saber o que lhe dizer, lamentei, dizendo que não poderia
(sabendo, no íntimo, que expor as reais razões para isso a humilhariam ainda
mais, pois seria o mesmo que dizer-lhe em letras garrafais que eu recusava
humilhá-la porque ela se humilhava por profissão), e deixei, vergado, o posto
onde ela me abordara, sem conseguir conter o marear dos olhos.
Caminhando cabisbaixo os 500m que me separavam da
aglomeração que guarnece o boqueirão do Igarapé, e onde a faina de beira retoma
seu pique, deparei-me com uma pequena lancha sem pintura emborcada, que, com o
motor de centro acionado, secava o porão do batelão. De dentro dele, sorridente
e simpático, acenou para mim o proprietário, enquanto jogava para a lama quilos
e mais quilos de akari-bodó, peixe de fácil reprodução e pesca que, pela
aparência cascuda, pela cor escura, pelo hábito de sobreviver da e na lama
quando das secas, e pela facilidade de ser pescado, é completamente desprezado
como uma Geni, por estas paragens urbanas amazônicas, onde impera o desperdício
o mais gritante dos recursos mais preciosos que o Planeta já ousou nos
oferecer.
Isso me fez pensar, com amargura, na moça que oferecera seu
corpo por um litro de açaí – quiçá menos – sobrevivendo às margens do maior
estoque pesqueiro, de açaí, de biodiversidade e riquezas jamais conhecido pelo
homem; consagrando o espírito amapaense, sempre disposto a fazer-se maquete,
caricatura do Brasil, ao celebrar uma ode ao desperdício, ao mau-trato, ao
mau-uso, ao não-cuidado. Agradecendo ao velho Daia pelo açaí especial vendido,
como sempre, pelo preço do normal, cruzei os conveses dos iates e lanchas
abeirados para chegar em casa, pensando em Darcy Ribeiro, que foi quem, depois
de tudo o que tenho visto e vivido, nesse sentido, me deu uma das melhores
definições do que somos neste país: o Brasil é uma máquina de gastar gente –
desperdiçar recursos, e acumular riqueza nas mãos de poucos, acrescento.
Bruno Walter Caporrino
Macapá, 26 de maio de 2012
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